A História do Jeans – A trajetória inicial (Parte 1/4)

O jeanswear é uma linguagem de moda universal que ultrapassa o fenômeno das tribos urbanas.

Um dos trajes mais inovadores da história contemporânea, a calca jeans Five Pockets, surgiu em 1853 quando Levi Strauss teve a ideia de criar uma calça para os trabalhadores das minas e cowboys norte-americanos que procuravam ouro durante a corrida para o oeste.

Levi fez uma experiência e confeccionou algumas peças reforçadas com a lona que possuía. Assim que disponibilizou aos mineradores, o sucesso foi imediato. Por conta da alta resistência, as peças não se estragavam com facilidade e proporcionavam uma durabilidade muito maior.

No entanto, Levi precisou procurar um tecido de igual resistência, porém mais confortável. O tecido de algodão vinha da região de Nîmes, na França e era usado pelos marinheiros genoveses. Daí veio o nome denim, ou seja “de Nîmes”. A cor azul que conhecemos apareceu só depois, quando Levi tingiu as peças com o corante da planta chamada Indigus.

Era uma roupa resistente que tomava a forma do próprio corpo: o jeans, que levou a denominação após um tempo de “anti-fit”, tinha a modelagem fora do padrão certo das medidas do corpo, algo que se moldava ao quadril, cintura e pernas.

Cada vez mais trabalhadores aderiam ao jeans para as tarefas árduas e de exigência física. No entanto, a calça só começou a ser utilizada no dia-a-dia no século XX.

Foi em 1872 que Jacob Davis,fabricante de capas para eqüinos, escreveu uma carta para Levi, dizendo que o peso das pepitas de ouro fazia os bolsos das calças dos mineradores caírem. A solução foi unir os bolsos às calças com o mesmo rebite de metal que era usado nas correias dos cavalos. Essa ideia foi de Jacob, mas Levi pagou a patente. Foi aí que os dois se uniram na produção das calças denim.

Com seus irmãos e cunhados, Levi fundou a Levi Strauss & Co. Em menos de seis anos a fábrica cresceu, lançou uma linha feminina e modificou a modelagem para evitar cópias. O nome qualificou o produto internacionalmente pelo fato de ter 5 bolsos (Five Pockets) e pela utilização de um número após seu nome, o “501”.

O primeiro lote das calças, número 501, nomeou o mais famoso modelo da Levi’s. Aos poucos surgiram os aprimoramentos: em 1860 apareceram os botões de metal; em 1886, a etiqueta de couro foi costurada no cós da calça; em 1890 veio a cor índigo. Os bolsos traseiros surgiram apenas em 1910.

O jeans alcançou a popularidade na década de 30 com os cowboys norte-americanos nos filmes de western. Os soldados dos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial, usavam uniformes que eram confeccionados com denim, o que agregou uma imagem de virilidade.

A partir daí o jeans ganhou status, ficou conhecido internacionalmente e foi batizado com o nome do alemão Levi Strauss, que apresentou a prática e confortável calça depois de chegar aos EUA como imigrante. A produção da Levi Strauss estava localizada em São Francisco, no estado da Califórnia e fazia inicialmente uma quantidade mínima e com tamanho unico.

A empresa internacionalmente conhecida como Levi’s tem lojas no mundo inteiro, mantém sua imagem e logotipo como uma padronização e atua no mercado de jeans com uma inspiração western e “rancheira”.

O jeans vestiu cowboys, ganhou popularidade no pós-guerra e apareceu nas telas de Hollywood nos anos 50 vestindo várias celebridades como James Dean, Marilyn Monroe, Cary Crant e outros. Dançou Rock’n’Roll na década de 60, criou moda nos anos 70 e pediu paz em Woodstock. Virou básico nos anos 80 se transformou num clássico na década de 90.

Após o término da guerra na Europa o jeans já vestia os 50 milhões de jovens americanos e foi trazido pelos pioneiros que vieram descobrir o Novo Mundo. Na metade do seculo XX o cinema americano se apodera desta calça como linguagem de juventude difundida pelo star system na imagem de James Dean em “Juventude transviada”.

Marlon Brando e Elvis Presley disseminaram o jeans entre os jovens da época, o que ligou a imagem da peça ao rock. O conceito de rebeldia do jeans ficou tão forte que o traje chegou a  ser proibido em escolas, cinemas e restaurantes. Depois a roupa ainda ganhou um apelo sensual, principalmente com Marylin Monroe.

Já consagrado como vestimenta jovem, o jeans ganhou uma nova característica no fim dos anos 70.  Com a guerra do Vietnã um novo grupo apareceu com ideais baseados na paz. Os hippies americanos usaram o jeans no visual largado e customizaram as peças artesanalmente, o que logo foi industrializado.

A roupa se associou ao conceito de juventude rebelde e o entusiasmo foi geral, primeiro entre jovens e depois em pessoas de todas as idades, mantendo a autenticidade e o espírito do produto. Nessa época os gigantes do jeans ficaram consagrados: Levi’s, Lee e Mustang.

A França remodelou o jeans e começou a exportar para a América. New Man foi a primeira marca a adaptar o corte masculino para o gosto europeu e a ampliar imensamente a gama de cores. Assim o termo blue-jeans foi abolido.

Calvin Klein foi o primeiro estilista a colocar o jeans na passarela, isso na década de 70, algo que causou certa indignação aos mais conservadores. Entretanto, essa atitude foi logo seguida por outros e o jeans conquistou seu espaço na sociedade definitivamente.

Ainda nos anos 70, Françoise e Mariethe Girbaud brincaram com todas as possibilidades de cores e de modelagens, desde as calças patte d’elephant até a baggy. Só em 1981 que os modelos mais autênticos ressurgiram.

Com simplicidade e integridade, o jeans é pode ser considerado a roupa que menos interfere nos códigos sociais, uma vez que consegue atender qualquer tipo de função e reflete todos os códigos possíveis.

Quem nunca teve uma calça jeans? Várias marcas brasileiras foram pioneiras ao introduzir uma coleção de Jeanswear. Podemos citar a Forum do empresário Tufi Duek, a Zoomp de Renato Kherlakian, e a M.Officer de Carlos Miele. Nos três casos as marcas conseguiram ganhar mercado, estabeleceram metas e as superaram. Apesar de hoje em dia atuarem com mais força no mix “fashion” para um público fiel e moderno, nunca deixaram de atender aquele consumidor que não deixa de usar a linha de jeans.

Mas de onde surgiu o termo “Jeans”? Os americanos da década de 50 conheciam como “Overalls”. A denominação que a Levis usava para as calças confeccionadas de um tecido grosso de algodão era “Waist Overalls”. Logo depois, na década de 60, resolveu-se popularizar um termo mais usual e fácil.

A palavra Jeans vem do francês “genes”, que descreve o estilo das calças dos marinheiros do porto do Gênova. Em inglês, genovese significa genovês. O termo teve origem em 1567. Tratava-se de um tecido de algodão encorpado tingido com índigo, como é até hoje. O índigo é a tintura mais antiga da história e também a mais natural, extraída das folhas de indigueiro.

Leia também:

A História do Jeans – A evolução no mercado (Parte 2/4)

A História do Jeans – Evolução de Fits e Lavagens (Parte 3/4)

A História do Jeans – A essência do denim (Parte 4/4)

Sobre Queila Ferraz

Queila Ferraz, Coordenadora Geral do Curso de Design de Moda da UNIP, foi professora da Universidade Anhembi Morumbi e dos cursos de pós-graduação de Moda do Senac. É historiadora de moda, especialista em processos tecnológicos para confecção e consultora de implantação para modelos industriais para a área de vestuário.
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